Insónia

 

   Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, 
    E o meu sentimento é um pensamento vazio. 
    Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam 
    — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
    Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam 
    — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
    Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, 
    E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo. 

    Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. 
    Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. 
    Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. 
    Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, 
    Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir. 

Insónia, Alvaro de Campos


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